Novo laudo comprova que militante da ALN foi torturado e executado

Um novo laudo pericial apresentado no Fórum Mundial de Direitos Humanos (FMDH), comprova que o militante da Aliança Libertadora Nacional (ALN), Arnaldo Cardoso Rocha, não foi morto em combate com a polícia, em 15 de março de 1973, aos 23 anos, como atestaram à época os agentes públicos da ditadura militar, mas sim que foi brutalmente torturado e, quando não tinha mais nenhuma condições de reação ou mesmo de locomoção, foi executado com dois tiros na cabeça, disparados de cima para baixo, nos porões do Doi-Codi, em São Paulo.

De acordo com o perito criminal Celso Nenevê, o laudo foi requisitado pela Comissão Nacional da Verdade (CNV) e permitiu, pela primeira vez, comprovar a materialidade da tortura e da execução por agentes públicos da ditadura a partir de uma exumação recente. Segundo ele, o exame da ossada do militante demonstrou a existência de 30 lesões causadas por pelo menos 15 disparos de armas de fogo, além de outras provocadas por instrumentos contundentes, como um cassetete, cano ou pedaço madeira. O laudo oficial produzido pela ditadura, apontava a existência de apenas sete fraturas, decorrentes do ilusório conflito com a Polícia.

Mas, conforme o perito, não é só a grande diferença no número de lesões que faz com que a versão da ditadura não se sustente. Segundo ele, a causa da morte de Arnaldo foi os dois tiros que atingiram seu cranio, disparados de cima para baixo, de distância próxima, típicos da execução sumária.

“Ele teve todos os membros superiores e inferiores feridos. Estava impossibilitado de andar, fugir ou mesmo reagir. E, mesmo assim, foi executado. As lesões por múltiplos instrumentos também são indicativas da prática de tortura”, acrescenta no laudo.

Para a viúva do militante, a ativista Iara Xavier, da Comissão de Familiares dos Mortos e Desaparecidos, o novo laudo resgata, 40 anos depois, a verdade histórica sobre Arnaldo, que tombou ainda jovem na luta contra a ditadura.

– Hoje, estamos tirando o Arnaldo das sombras – afirmou ela, emocionada.

E defendeu que é preciso ir além.

– Nós queremos que os agentes responsáveis por este crime de lesa-humanidade sejam julgados e punidos. E não nos move nenhum sentimento de vingança, como acusam alguns militares de pijamas que permanecem por aí. Nós queremos que os fatos sejam esclarecidos, que as autorias sejam conhecidas e que a justiça seja feita para que coisas como essa nunca mais aconteçam – afirmou.

A ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, frustrou as expectativas daqueles que esperavam que, na apresentação do laudo, ela pedisse o perdão oficial do Estado brasileiro à Iara e aos demais familiares de Arnaldo. Quebrando protocolo, ela afirmou que, para ser perdoado, o Estado brasileiro precisa ser mais contundente nesta e em outras reparações.

– Não se pode matar e depois apenas pedir perdão. Em nome do Estado, acredito que só poderemos ser perdoados quando repararmos todo este passado. Não penso que o Estado, hoje, mereça o perdão. Talvez algum dia – concluiu.

 

Fonte:Correio do Brasil





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