Lembranças mandam recados...

Função pericial, plantão, os locais de crime, a diversidade da dor, da perda... Crônica após a emoção do perito, por que não (!), ao ver - e periciar - um local de acidente de trânsito com três mulheres mortas, uma delas com a cabeça separada do corpo pelo golpe de tal fatalidade. 

Elas chegaram cedinho. Eram 03h20 de uma madrugada em que, embora o telefone não tenha tocado uma única vez, o sono não colaborou, como nunca colabora, quando se está de plantão, em tenso estado de alerta. Poderia ter ficado na cama e ficou. Um pouco mais apenas. Visitas inesperadas que carregam com elas uma bagagem cheia de detalhes, depois de algum tempo, falam cada vez mais alto, até que o silêncio desiste de insistir em conciliar o sono. Sem disfarçar a impaciência, o cansaço se levanta.
Pela intimidade que tem com elas, mas que ele não gostaria de tê-la, não seria deselegância permanecer deitado por mais algum tempo. Mas quando elas começam a mexer na bagagem, é inútil permanecer deitado, mesmo com elas do lado.
Da bagagem não surgem presentes, mas ressurge o passado, como se fosse o presente. Primeiro são as imagens que pelo tempo, já deveria ter tons amarelados, mas não! O vermelho continua sangue e a pele, essa permanece mórbida, meio cinza, sei lá! A mesma! E de repente se descobre que lembranças também têm cheiro! Desagradáveis, às vezes.
E o dia que não amanhece apesar desse antipático horário de verão. O sono, ah, esse se fora de vez! Quem ficou foram lembranças de uma peruca negra, lisa, salpicada de cinza, pendurada numa carga de lenha, no passado de um caminhão noturno. Silenciosamente um corpo de mulher morena, a 21 metros de distância parece retrucar: não é peruca! Mais adiante, a metade de outro carro. Não dá mais para dormir...
Agora um plástico preto, sai da bagagem e nem é preciso chegar ao terceiro. Debaixo do segundo brota uma emoção inesperada. Pausa para uma respiração profunda e alguns passos a esmo pelo asfalto buscam o autocontrole. Da bagagem ecoa em tom solidário o comentário sutil daquele músico, ali fotógrafo de um jornal diário: Você nunca se acostuma, não é? Um fio de voz confirma: “acostumar-se com essas cenas, equivale a perder a sensibilidade humana, então, essa é a hora de se abandoar a profissão”.
A consciência do dever manda retomar o trabalho exigindo equilíbrio. É necessário lidar com a perda dos outros, que na verdade, não é só dos outros. O choro, os gritos de desespero de familiares, também ressurge da bagagem dessas visitantes noturnas, as lembranças.
O dia ainda não raiou, mas o cansaço toma a iniciativa e se despede das visitantes, talvez, por enquanto!
Se essas lembranças espontâneas, inoportunas e extemporâneas visitam o cansaço pela porta da insônia, é porque a janela do estresse há muito está aberta, mandando recados à negligência do poder público, quanto ao dever de prevenir contra doenças psicossomáticas que acarretam seres humanos de algumas profissões, como é o caso dos peritos que têm como missão, materializar a verdade para que se faça Justiça aqui, ali, no Rio Grande do Sul, ou em qualquer parte, mesmo aonde, no cumprimento do dever, haja omissão do Estado.

 





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